sábado, 13 de abril de 2019

A garota de dez anos atrás


Vejo no Facebook diversos amigos postando fotos de 2009 com uma de 2019, mostrando como eram e como estão agora. O intuito é fazer uma comparação, destacando principalmente as mudanças estéticas. Ok, achei a ideia bem legal; é divertido ver como algumas pessoas mudaram: o corpo, o cabelo, a vestimenta, o rosto...
Não tive vontade de entrar na brincadeira. Mas então me deparei com a seguinte frase:

“ A garota de dez anos atrás acharia a mulher que você se tornou uma pessoa incrível.”
                                                                                                            (Larissa Borges)

Daí, você, leitor dos meus escritos, já sabe, né? Mil coisas passaram pela minha mente. Por que não? Por que não entrar na brincadeira? Mas não simplesmente postando fotos que mostram se mudei ou não em dez anos fisicamente, apenas! Vou além; farei uma fotografia descritiva da alma. Sua alma continua com a mesma estética Haliny? Tem o mesmo peso? Usa as mesmas roupas? Calça os mesmos sapatos? No rosto o mesmo sorriso?
Deixe a timidez, de dez anos, longe de você e revele-se! Brinque também, da maneira que você gosta, mas mostre suas mudanças, seu crescimento, sua força. Seja inspiradora!
Haliny – a garota de dez anos atrás...

Era uma vez uma garota insegura, medrosa, reprimida, de poucas palavras, poucos amigos, cercada pela muralha da timidez, raro eram as pessoas que conseguiam acessá-la, tirar-lhe um tímido sorriso.
Mas ao mesmo tempo aquela garota, mesmo com muita dificuldade, correra atrás do que queria. Ela tinha grandes sonhos, intensos desejos, mas sempre era como se tentasse correr na água; várias coisas atravancavam seus passos, porém não desistiu.
Há dez anos aquela garota, mesmo timidamente, entrava para a faculdade. Que passo ousado para uma pessoa tão tímida! Um desafio! Difícil deixar a casa, aquele conforto seguro, porém perigoso, ter de enfrentar sozinha um mundo desconhecido e muito maior do que o que ela vivera até ali. Ela pensava que a vida mudaria; que faria amigos, tornaria mais independente, deixaria de ser uma simples adolescente.  Mas não fora assim. Logo ela viu que suas amarras mentais a acompanhavam, impedindo que delas se desvencilhasse. E continuou correndo em águas. Ela caminhava, mas não progredia. O pior era que ela sempre esperava que algo surpreendente acontecesse em sua vida, sempre esperava que esta lhe trouxesse os objetos dos seus sonhos; sempre esperava que alguém a tirasse daquelas águas e que a levasse a uma nova vida. Ela não conseguia enxergar que aquele milagre do novo, do surpreendente, habitava em sua mente. Ela não enxergava que somente ela mesma poderia tirar-se dali apenas mudando a direção dos passos, parar de andar só nas águas e olhar para a terra tão próxima e caminhar em direção a ela. Aquelas  coisas que atravancavam seus passos estavam em sua própria mente. Precisava mudar o olhar, mesmo que não fosse fácil, livrar-se daquilo que sempre acreditou. Olhar outras direções, criar novas possibilidades e caminhar para onde desejasse. Na sua mente, estava o poder da mudança mas ela não enxergava!
Os anos foram se passando e, a cada ano, aquela garota continuava esperando e esperando que a  mudança chegasse. Mas essa não chegava e, ela que não sabia que nem chegaria se ela continuasse esperando sem buscar, ainda conseguia dar seus passos, que não lhe bastavam. Ela queria caminhar por novos lugares, ver outras paisagens.
Apesar disso, ela se via cada vez mais infeliz, retraída, desanimada. Viu sua juventude passar sem desfrutá-la de fato. Passou por pessoas que se tornaram amigas, mas estavam adiantadas, não  ficaram. Via-se cada vez mais sozinha e viu que já estava começando a perder as forças por caminhar demais naquelas águas obscuras. O pior poderia chegar a qualquer momento: afogar-se em seu próprio oceano; permitir que as velharias da sua própria mente, matassem seus sonhos, tirassem a vida. Se é que podia chamar de própria vida a vida que levava, já que ela só esperava sem agir.
Um dia, no chão do seu quarto, caiu. Ali, naquele canto solitário do desânimo, e chorou!
Ela chorou...
Suas lágrimas misturaram-se com as águas. Tempestade naquele oceano. Aquela garota não sabia mais quem era, em quem se tornara. “Quem é você, Haliny? Onde estão os seus sonhos, seus objetivos? Onde estão os amigos? Onde está sua casa? Onde está sua alma?” Ela indagou-se. Ali, naquele chão duro e frio, viu-se completamente só. Mas foi ali naquele chão, sentindo-se um nada, humilhada, que a garota finalmente enxergou que tinha de sair daquelas águas que lhe atravancavam o caminhar. Foi o afogamento que lhe trouxe a consciência da importância do respirar, do qual precisava desesperadamente. Oxigenar a alma para não perecer.
O primeiro passo é muito dolorido, mas libertador. Não seria fácil quebrar o costume, mesmo que já estivesse desgastado pelo tempo. Mas foi. Aproveitou o pouco ar que dispunha, a fraca força que ainda nela habitava e se levantou daquele chão, saiu daquele mar para caminhar na terra. Mas ainda estava muito fraca quando chegou à terra. Não sabia para onde ir. Na água conhecia aquele mundo. Mas... e agora? “E agora José?” O que faria? Para onde iria? Sozinha.
Antes precisaria recuperar as forças e deitou naquela areia. Aquele repouso era necessário. Não, era vital! Se ela saísse caminhando do jeito que estava, poderia perder a direção, sucumbir; suas pernas estavam fracas. Antes teria que descobrir o desejo, (re)descobrir, descobrir – tirar os lençóis que pusera sobre os sonhos para não vê-los. E aí sim, quando estivesse recuperada, alimentada, com a mente clareada, poderia seguir segura, mais forte e destemida. Isso não seria fácil. O repouso não foi fácil, ela era ansiosa, queria que tudo acontecesse já! Mas a mudança, o novo caminhar, não viria assim. Ela teria de viver o repouso para redescobrir-se. Tinha que recuperar-se das dores que o velho caminhar impôs em seu corpo que cortava suas entranhas. Precisava alongar os membros atrofiados.
Bem. Para se recuperar, o lugar do repouso foi um divã. Toda a desordem  estava em sua mente. Esta precisava se rever no repouso da psicologia. O repouso foi difícil no início, mas essencial. Na terapia viu tanta, tanta coisa. Descobriu coisas horríveis, mas também coisas incríveis. Teria que fazer um retorno para ver de onde saíra e para onde iria...

Após o término da faculdade, aquela garota voltara para casa. Sentia-se triste, pois não veria mais os amigos nem teria para onde ir. Era hora de conseguir um emprego, mas este não veio. Que frustração! Presa naquele mundo sem poder nada fazer. Sonhava em conhecer um cara especial, mas este não surgia. Tinha vontade de viajar, passear, sair para jantar, mas ninguém a levava. E assim foi por anos, com desejos reprimidos.  Certo ano veio um emprego. Bom! Poderia ver novas coisas, conhecer novas pessoas, quem sabe fazer amigos?
Só que o que mudou foi uma situação e não sua mente. Continuava correndo na água. Ela não conseguia se relacionar com as pessoas, fazer conexões. Com o tempo, sentiu-se mais frustrada e isolada. Vieram as crises. Descobriu que aonde quer que ela fosse, continuando a carregar aquelas amarras mentais, não haveria transformação. Não seria simplesmente a mudança das situações, seria além. Não era fora, era dentro. Era ela que teria de mudar. Só ela. E só, ela teria que enfrentar a ela mesma. Só não sabia que seria tão doloroso, que seria como arrancar a própria pele, escorrer sangue, que teria que desnudar-se.
E assim, mesmo com muita vergonha, desnudou-se, tirou as velhas roupas e olhou para dentro de si. E foi, lenta e timidamente que suas amarras começaram a se desfazer. Ela se assustou tanto! Descobertas incríveis. Aos poucos se recuperava naquele hospital da alma. Logo poderia se levantar para dar uns primeiros passos, visualizar uma rota. Descobriu que tinha sido forte por andar tanto tempo presa e que precisaria de muita força para suportar a dor da sua metamorfose.
Mas valeu a pena! Valeu o esforço. Vale a dor. Hoje em 2019, aquela garota se reconstrói, torna-se mulher. Claro que ela sabe que essa construção não terá um fim, pois ela aprendeu que viver é isso: uma eterna reconstrução, ter a capacidade de se refazer após cada queda. Isso é crescimento, evolução, amadurecimento. Ficar estagnado na vida pode ser letal. A vida é uma constante mudança, constante movimento; precisa de ação. Quando paramos adoecemos, literalmente. Ficamos cheios de neuroses.
Ela adquiriu uma força incrível para conseguir o que quer. Já não espera mais um grande milagre chegar, pois ela é o milagre; corre atrás, luta. E mesmo que não consiga, sente-se feliz porque agora ela encontrou sua capacidade de tentar. Hoje, tudo é resultado de suas próprias ações. Hoje, ela vai sozinha; já não mais depende que alguém a leve. Se tiver companhia, ótimo; se não, não há problema: ela é sua melhor companhia. Sai para jantar, comer uma pizza, ir ao cinema. Ela ama estar só com ela mesma, pois assim pode ouvir melhor a voz da sua alma. Mas isto não a impede de conhecer novas pessoas. Ao contrário. Ela busca e conecta-se a novas amizades. Aliás, ela está mais seletiva; não aceita qualquer amizade não! Cansou de amizades abusivas. Hoje, ela sorri com ousadia, anda de cabeça erguida, é determinada, vê-se incrível; não tem medo de mostrar-se. Deixou de usar aquelas velhas roupas sem cor nem alegria para vestir-se com  as novas e coloridas roupas adquiridas.  

Bem! Esta não é uma história clichê. Não tem o final feliz como nos contos de fadas. Aliás, esta história não tem fim. Ainda bem! Ainda há muita luta e mudança a ser feita. E isso não depende de uma fada; depende somente dela, e ela, não quer fim; quer vírgulas, continuidade.
Ah! Você pode estar se perguntando: “E o príncipe?” Ela não quer um príncipe encantado. Príncipes encantados são efêmeros, fantasias. Ela quer um homem, humano, com belezas e defeitos. Um homem real.
Uau! Quanta transformação! Foram muitos sofrimentos neste processo, mas essenciais.

A garota de dez anos atrás não sabia que dentro dela habitava uma mulher incrível, que só precisava nascer. A mulher de 2019 descobriu que a garota de dez anos atrás era como uma planta, cuja beleza estava escondida sob folhas secas,  que só precisava ser podada e regada para florescer o melhor de si.

Na garota de dez anos atrás havia uma mulher forte, linda e invencível que apenas dormia. Mas os intensos e clamantes sonhos a fizeram acordar para vivê-los a cada dia!    


                                                                                                      Haliny

  
  


quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Caminhando na chuva






 Novamente choram as nuvens lá fora. Observo pela janela do meu quarto. Não choram tempestade; derramam um gelado e fino chuvisco, mas que transborda melancolia. Não esperava vir um dia tão frio em meio a dias quentes de verão.
Novamente chora a alma aqui dentro. De volta ao canto solitário do desânimo. Não lágrimas tempestuosas; é um frio e silencioso choro, mas que transborda palavras. Ela não esperava a volta de geladas nuvens ao estar sendo aquecida por um quente sol de verão.

O que as nuvens dizem?
Elas dizem que o sol aquecera demais a terra, que agora necessita refrescar. Elas vieram refrescar a terra para que esta não pereça nem fique sequiosa por tanto calor. Ela precisa ser regada. Ao receber as finas gotas a terra põe fim ao que seja excesso e se renova. Logo, estará pronta para novamente ser tocada pelo sol. Mas agora sua necessidade é o descanso, as sombras e as suaves águas das nuvens, já que aquele sol fora intenso demais.

O que a alma diz?
Ela diz que aquele sol a aquecera tanto, que ela chegou a pensar que ele ficaria até o fim da estação. Mas não foi assim. Aquele intenso sol de verão se fora levando consigo tudo o que prometera. Mas por mais que a alma não as queira, ela necessita de nuvens em meio ao verão; necessita de lágrimas que a refresquem, que ponham fim ao que for excesso e a renove para um novo sol.
A vida é assim. Dias chuvosos e gelados fazem parte, mas é difícil passar por eles sorrindo. Dias de lágrimas. Dias que doem.

O que fazer agora? Como superar essa chuva?
Já sei. Lembro que quando criança, eu desejava brincar, tomar um banho de chuva; só que existia uma barreira que me impedia chamada mãe. Vou voltar à velha infância: vou...
...caminhar na chuva!
 Carpe Diem! Vou colher o que o dia me oferece. Mas o que será que posso colher na chuva?

Caminhar na chuva. Não importa se a estrada é a mesma, você sempre verá algo novo. Não tenha medo –mesmo  que sua mãe diga que você está maluca. Não tema ser acometido por uma gripe – depois você toma um remédio. Não se importe de sujar o seu tênis – depois a água limpa. Só não perca essa chance de vida!
Foi o que fiz. Deixei pra trás os receios, calcei o tênis e parti. E daí?
Sentir na pele o toque daquela chuva fria, indescritível sensação! A água que regava a terra adentrava meu corpo refrigerando a alma. Vi tanta coisa.
Ver a chuva cair. Os pássaros não deixaram de voar nem cantar. Vi uma terra colorida ainda que encoberta por cinzentas nuvens. Vi que há muita, muita vida em meio à chuva, basta sabermos enxergar. Imagina todo o leito de um rio coberto por um tapete de resplandecentes brancos lírios; lírios são flores de vale. Olho para o céu – apenas  nuvens? Não! vi um solitário helicóptero passeando dentre elas (piloto corajoso!).  Toquei as folhas molhadas. Elas ficam retraídas, mas sorriem para mim. Não há sorriso tão verdadeiro. Vi flores de múltiplas cores. Tive de colhê-las.
Bom mesmo é voltar a ser criança e fazer imagina o quê? Pisar nas poças que se formam na estrada. Incrível. Por mim passaram alguns carros. Imagino o que aquelas pessoas pensaram ao var alguém caminhando na chuva e colhendo flores. Pensaram  que eu deveria ser maluca, ou talvez sentiram inveja e pensaram: “Como eu gostaria de deixar esse carro e também caminhar na chuva.”
Liberdade é isso mesmo: cometer algumas loucuras. Mas louco mesmo é quem não vive, quem não se dá oportunidades, que fica preso dentro da sua casa, preso dentro do seu carro, preso dentro dos seus medos de se molhar, de se sujar, de adoecer, de viver. Nós adoecemos se não vivermos, se não fizermos. Quanta coisa linda eu teria privado meus olhos de  verem e minha alma de sentir se tivesse ficado no conforto do meu quarto.
Ah alma minha! Caminhe nesta chuva. Se molhe, se suje, adoeça para sarar esta dor. Permita que as águas te renovem; colha as flores que ela alimenta e enfeite-se delas; não se prenda a este canto solitário, se envolva, aproveite para saltar em meio às poças formadas por suas lágrimas, pois logo, elas secarão. Desprenda-se do que já não está mais presente e abra seus olhos para o  novo. Colha o que a chuva te oferece.
Valeu a pena caminhar na chuva. As  flores que durante a caminhada colhi agora colorem e alegram o meu quarto do conforto.
É caminhando na chuva que a alma encontrará flores para colher e trazer um pouco de alegria ao canto solitário do desânimo.
Carpe Diem!    

                                                                  Haliny

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A um indisciplinador de almas


“A minha vida indisciplinadora de almas.”
                                  (Fernando Pessoa)

Ao ler esta frase, logo me veio à cabeça você. A pessoa que indisciplina minha alma.
Encontrei em Cortella um pensamento que cabe aqui. Ele diz que “ existe uma indisciplina saudável, aquela que nos tira das trilhas de um conforto perigoso, que nos faz pensar de outro modo, que nos leva a sonhar.” E eu completo dizendo: sonhar e realizar. Realizar aquilo que nos torna o que realmente somos; o que somos na alma.
Bem! Muitas vezes em nossa vida somos levados a absorver certa disciplina. Disciplina esta que nos é imposta, que dita regras, nos acorrenta, que diz o que é certo e o que é errado, o que devemos fazer, o caminho que devemos seguir, como devemos proceder. Quer que sejamos certinhos, impecáveis como ela deseja. Mas essa disciplina nos infelicita já que pode nos colocar numa rota indesejável. Uma rota de angústias, solidão.
A disciplina nos faz viver o que seria regular, ideal, normal, ainda que não necessariamente nos agrade. Mas quando ela se torna uma sofrida obrigação, nos levando a fazer o que não desejamos, nos vemos mergulhados num mar de dor. O que se torna ainda pior ao afirmar que aquilo que é o desejo da nossa alma é errado, pecado; e o lugar onde ela almeja ir é inapropriado. Caos!
No mar da dor começamos a nos afogar, precisando urgentemente de um salva-vidas, antes que pereçamos.
É aí que você surge. Você é o salva-vidas da minha alma, estendendo-lhe a mão, colocando-a em seu barco, ajudando-a a enxergar uma nova rota, a rota do desejo e não mais a rota  da pesada disciplina.
Você faz a alma a começar assumir suas próprias vontades, a ser sujeito e não objeto; a viver uma ‘indisciplina saudável’, tirando-a “das trilhas de um conforto perigoso”, a brindar a vida com o vinho da liberdade.
Você indisciplina minha alma para que ela possa realmente viver.
Você é uma “insuportável” vida indisciplinadora de almas. E minha alma aprende que é a indisciplina que a dá vida.
Quem sabe um dia eu também venha poder indisciplinar algumas almas...
                                                         

                                                         Haliny

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Flor de vale


Flor de vale

Pela manhã, a caminho do trabalho, um amigo me perguntou:
-Haliny viu aquela flor ali no pasto? Tão bonita. Interessante é que ela se destaca em meio ao verde.
-Ah amigo! Que sublime reflexão! Você acaba de me presentear levando minha alma por uma brilhante metáfora vagar.

Flor de vale.

Solitária, ela nasce em brutas e desprezadas terras; por vezes em brejos fétidos, grosseiras rochas, alto mato. Suporta a chuva, o frio do inverno, o quente sol do verão. Flor que não se rende fácil às muitas dificuldades.
Ela é forte e as dificuldades parecem torná-la ainda mais interessante. Pois ali, sozinha, cercada por uma sóbria paisagem é que sua beleza resplandece. Ela é o tudo em meio ao nada. Não nasceu para se mostrar a alguém; ela é bela porque se completa. Ela sabe extrair daquele lugar, o que necessita para crescer. E tudo isso ela faz sem esperar que alguém a olhe e diga  quão bela ela é. Ela é assim porque ser ela, sem interesses, é sua essência. Ela transmite alegria, embeleza a terra, faz vibrar a vida, exala um suave perfume.

Flor de vale.

É tão interessante, chega a ser divina. É esse cenário rude que a destaca e ela, por outro lado, torna belo o que é feio, ou seja, quem olharia para aquele lugar se ali não houvesse uma linda flor? Sua beleza não seria tão notável se vivesse num grande jardim cercada por outras flores, já que estas....
Ah! Outras flores sufocariam e disputariam sua beleza! É ali, em meio ao nada que ela chama atenção, sem nada querer, sem nada esperar, até que alguém a veja, e sobre ela, talvez, escreva. É, foi em meio ao nada, em meio a dolorosas vivências, que ela fez história, foi notada, virou poesia, tornou-se eternizada.

Flor de vale.

Como fazer beleza em meio ao nada?
Quando eu  crescer quero ser como ela. Mesmo solitária é forte, linda por acreditar em si mesma, sem esperar que alguém a reconheça. Quero aprender a ter essa essência; apenas viver, mesmo que ao meu redor haja um sombrio cenário. Quero fazer beleza mesmo estando em solidão; exalar um perfume suave mesmo que em volta seja podridão.
Flor de vale é coisa rara. Ser bela em meio ao nada, sem em troca nada esperar, são poucos que conseguem tal proeza. É para quem é forte, que não se deixa vencer pelas dificuldades, não se rende facilmente, não se entrega às grossas regras, que vive para si, e não para por outros ser aprovada.

Quero ser uma flor de vale. Não para que isso aconteça, mas quem sabe um dia, eu também seja casualmente notada e me torne motivo de poesia de uma bela alma?
Acho que flor de vale também pode sonhar...

Haliny

Dedico estes versos ao estimado companheiro das diárias e longas jornadas para o trabalho, um ser humano de altíssima qualidade e presteza ao próximo, Marcelo – o amigo que me mostrou a flor.     
Que deu origem ao "Flor de vale"


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Perdão



Hoje seu perfil é um espaço em branco. Terminou da pior maneira possível nossa não existente estranha relação. Me entreguei, mergulhei, me afoguei, chorei tentando viver o que eu queria e não vi que te feria. Tentei fazer de você a realidade para o meu sonho. Em vão.
Como eu ainda penso em você? Como ainda choro por você? Como ainda escrevo pra você? Como ainda aplaudo você, admiro sua apresentação? Você não faz show; sua existência já brilha por si só. Você nunca esteve totalmente presente, mas sua ausência ainda me perturba. Sinto tanta falta! Nunca vou deixar de acreditar que você é lindo. Você foi um presente de Deus. Presentes de Deus são divinos, especiais, feitos por Ele na exata medida da qual necessitamos. Mas muitas vezes, nós, pecadores, seres humanos falhos, maus, não sabemos como usufruir do presente da maneira como Ele objetiva que o utilizamos. Desejamos que sejam mais do que aquilo que ele deve ser. Somos egoístas, transferimos para ele nossas próprias idealizações e frustrantes expectativas. A medida em que Deus nos dá é a perfeita para completar nossa necessidade. Mas nós não entendemos. Usando o presente de forma equivocada, acabamos quebrando-o.
Foi o que fiz. Sua amizade Deus me deu, mas quebrei meu presente, como uma criança birrenta insatisfeita. Quebrei você. Agora, sabendo que não há conserto, sabendo que nunca mais poderemos ter falas camaradas, eu, arrependida de tudo, só posso chorar ante as lembranças ainda acesas em minha alma. Eu não soube aproveitar meu presente. Eu não soube entender que o propósito era uma serena amizade. Nunca mais poderei ouvir sua música, nem ler os seus versos. Nunca mais poderei ouvir sua tranquila fala quando por hora compartilhávamos histórias em gostosas ligações.
Há dezessete dias eu quebrei meu presente, ferindo você, traí sua confiança por completo. Mas desde aquela noite na qual o conheci, não soube tê-lo. Deus por ser misericordioso com seus errados filhos, pode até me enviar outros presentes, mas nenhum que seja para ocupar o espaço que ficou no lugar que era para você – agora, um  espaço em branco. Desse modo eu sei que isso, é para sempre que eu ao  olhar para esse espaço vazio, sentir a dor do arrependimento por não ter tido cuidado do presente que Ele me dera; aquele que completaria minha alma. Essa dor me acompanhará para sempre, para que eu jamais esqueça o que posso vir a perder se novamente eu der voz ao meu egoísmo.
Narcisismo! Eu entendo que amei você, mas o que fiz foi só querer satisfazer meus próprios anseios. Afinal, o amor não veio para nos tornar livres? Jesus, O Amor, veio para livrar nossas almas das prisões. Como eu pude querer, te amando, amarrá-lo a mim de qualquer forma? Eu errei ao colocar meu amor próprio acima do amor que nasceu por você; o amor que Cristo me ensinou, eu não soube usar. Amar é dar liberdade. É dando liberdade a quem amamos que se tornam mais próximos.
O adeus, eu já dei a nós e não há volta. Voltei, não para reconstruir nada, pois se colarmos um vaso que se quebra, ficam horríveis marcas, perde-se a beleza genuína. Voltei para reconhecer meus erros com você, reconheço minha pobreza enquanto SER humano. Eu não tenho direito, mas saiba que ao quebrar você, foi também quebrar a mim. Por isso, estou em pedaços que não podem ser reconstruídos. Eu não estou dizendo isso para ter sua compaixão nem mendigar sua atenção outra vez. Não! Só estou dizendo isso porque é meu dever reconhecer que Eu errei – desde o início, e pedir perdão, mesmo sabendo que não tenho direito a tê-lo. Perdoa-me!

Haliny

Sol de verão



Você me enlouquece, me desconcerta.
Já leu meus versos senhor?
Se leu, já sabe.
Se não leu, vou te dizer agora o que dizem:

Minha alma estava imersa num inverno agressivo.
Um dia um raio de sol entrou pela janela tocando sua pele gelada.
Ela foi levemente aquecida.
Já sentiu isso? Aquele calorzinho sereno de sol de inverno? Bom né?
Mas o frio foi mais forte.
Aquele sol não permaneceu me aquecendo.
Foi...

...calor de inverno.

Veio a primavera.
Ah! As flores.
O inverno tinha queimado as flores do jardim da minha alma.
Mas ficaram as raízes. Agora acho que elas estão florescendo novamente.
Primavera antecede verão,
Quente estação.
Sol constante, quente, envolvente.
Aquece minha alma, a faz suar de êxtase.
Sol de verão...

Você é o meu sol de verão.
Chegou aquecendo minha alma.

Então vem, vem me aquecer!
Que seus braços sejam os raios a me envolver
Faça-me queimar com seu calor.
Quero suas mãos junto às minhas,
Abraça-me, se entrelaça em mim.
Vem alimentar as flores do meu jardim.
Seja energia para minha fotossíntese, me faça viver.

Meu sol de verão...

Pena que assim como a estação,
Um dia chegará o momento da separação...

Haliny

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

E, porque acreditava...


“Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam.”
Clarice Lispector

Delicioso mergulhar no profundo dizer incutido em tão singela frase.
Tudo adquire realidade à medida da crença que damos ao que nos é dito. Vamos pensar?

Disseram-me que Deus é real. Eu acredito; sim, Ele existe. Porque acredito Ele é real pra mim. Eu sinto sua suave presença me proporcionando uma indescritível força. Se você não acredita em Deus, Ele não pode existir pra você!
É assim. Podemos tornar reais coisas boas como Deus, como também coisas más que nos fazem acreditar: aquelas coisas que muitos dos que estão a nossa volta dizem sobre nós, que não necessariamente nos representam. Falas que, se abrirmos a porta, entram e se alojam tornando-se hospedeiros indesejáveis.
Por um longo tempo vivi assim, acreditando nas mentiras ditas sobre mim e, porque acreditava, em verdades elas se tornavam.
Via-me refletida nos espelhos construídos em olhares cruéis. Uma imagem distorcida de mim, que mostrava um ser que não era; pintado com grosseiras tintas em pincéis de aço. Quanto mais nesses espelhos eu me olhava, mais feia acreditava ser e, porque acreditava, feia me tornava.
Ouvia discursos feitos sobre mim por insensíveis bocas. Falas duras, ditadoras, manipuladoras. Me ditavam a timidez, a pequenez, a infantilidade, a incapacidade. Dizeres repressores que diziam que eu era assim e, porque acreditava, assim eu era. 
Aquelas crenças que determinavam em quem eu me tornava. Mas aos poucos elas começaram a não fazer mais sentido. E eu, eu comecei a questioná-las, pois ao estar longe daquelas deturpadas falas, eu não agia como elas diziam. Ao estar delas afastada, eu encontrava a mim mesma. E nesses encontros havia alegria, força, ousadia. Mas ao voltar...
Quando voltava, novamente me vestia das velhas crenças. Foi então que comecei a indagar: “Sou o que sou ou sou o que não sou?” e comecei a ver que aquela não era eu; um ser moldado em arcaicos moldes. Então decidi desacreditar. Mesmo escorrendo sangue, precisava arrancar aquelas tintas com que me pintaram; fechar a porta para quem eu não queria dentro da minha casa, ignorar aquelas vozes.
Desacreditei e, porque desacreditei, as velhas crenças começaram a deixar de existir. Ao tirar aquelas tintas me vi de verdade. Vi-me bonita, alegre, colorida; harmônica arte; ser precisando ser remoldado em contemporâneos moldes. Olhei-me pelo espelho dos meus olhos; gostei de me ver refletida ali. Comecei a ouvir a voz da alma. Esta voz  que me diz que sou capaz, que me impulsiona a ter ousadia, que me mostra que sou viva, sou grande, sou mulher que deseja viver o que é!
Desacreditei para acreditar. Acreditar em mim e, porque acredito, eu existo.

Haliny